Este é um relato humanizado sobre o atendimento clínico de Dona Marlene, uma idosa de 82 anos que vive com demência mista (Alzheimer e lesões vasculares).
Dona Marlene tem 82 anos.
Veio à consulta acompanhada da sobrinha. Não tem filhos e está viúva há mais de dez anos. Mora hoje numa casa de repouso, depois que a vida começou a lhe pregar algumas peças que, no começo, pareciam apenas esquecimentos triviais, mas que com o tempo ganharam densidade.
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Dona Marlene tem uma síndrome demencial mista.
Chamamos assim quando há mais de um tipo de agressão ao cérebro acontecendo ao mesmo tempo — geralmente alterações típicas da doença de Alzheimer associadas a lesões vasculares causadas por pequenos derrames ao longo da vida. É como se a memória estivesse sendo atacada por dois caminhos diferentes: um degenerativo e outro circulatório.
Há alguns anos, o quadro se abriu com alucinações auditivas. Dona Marlene passou a ouvir vozes. Ficou agitada, não dormia nem de dia nem de noite. A sobrinha, única família disponível, quase viu o próprio casamento ruir tentando dar conta de uma tia que falava sozinha pela casa às três da manhã.
Hoje, no entanto, chegou diferente.
Vestia um conjunto verde claro, leve, fresco, daqueles tecidos que parecem guardar o vento dentro deles. Quando toquei seu braço para examiná-la, senti o pano macio entre meus dedos — uma elegância que muitas vezes sobrevive mesmo quando a memória não sobrevive mais.
— Doutora, eu estou namorando.
A sobrinha olhou para o chão.
— É mesmo, Dona Marlene? E qual o nome dele?
— Pietro.
— E ele mora lá também?
— Mora.
— Quantos anos ele tem?
Antes que eu terminasse a pergunta, olhei para a sobrinha. Ela arregalou os olhos e fez um “não” silencioso com a cabeça.
— Acho que você conhece — disse Dona Marlene. — Você falou com ele pelo telefone.
A sobrinha respondeu:
— Ahhhh… foi mesmo. Falei outro dia.
Piscou para mim.
— Eu não sei direito a idade dele… ah, lembrei. Ele tem 33 anos.
Demorou alguns segundos até que minha ficha caísse. Até então, eu imaginava que o desconforto da sobrinha era com o namoro em si. Cheguei a perguntar se eles dormiam cada um no seu quarto.
— Eu falei pra ele procurar alguém mais jovem — continuou Dona Marlene — mas ele disse que gosta de mim. Vamos nos casar.
— Oba! — disse a sobrinha.
— Oba! — repeti.
Entre uma pergunta e outra da avaliação, Pietro resolveu participar da consulta.
— Pera um pouco, doutora, deixa eu escutar o que ele está falando.
Eu e a sobrinha nos entreolhamos.
— Você escutou o que ele disse? Ele é muito inseguro. Está passando no psicólogo.
— Estou escutando… mas não estou entendendo. A senhora não fala pra mim?
— Ele está falando baixo.
— Faça uma força que a senhora escuta.
De repente, virou-se para a sobrinha:
— Ele quer falar com a doutora pelo telefone.
A sobrinha pegou o celular e começou a conversar com o Pietro invisível. Em seguida, estendeu o aparelho para mim.
— Ele quer falar com você.
Peguei.
— Oi, Pietro. Prazer. Tudo bem?
Pausei para ouvi-lo.
— Dona Marlene comentou que você anda falando algumas coisas na frente dos colegas e ela tem ficado envergonhada… Será que você poderia evitar?
Escutei novamente.
— Ah, tudo bem? Então tá bom. Obrigada. Tchau.
Dona Marlene não pareceu satisfeita.
— Não era isso que ele queria te contar.
Novo telefonema.
— Oi, Pietro… ah, entendi. Está passando com psicólogo? Vai começar medicação também? Que bom. Esse é o tratamento correto mesmo. Vai dar tudo certo.
Quando desliguei, ela pareceu aliviada.
— Ele é muito inseguro. Não acredita no potencial dele.
Continuei a consulta. Perguntei datas, nomes, acontecimentos recentes. Para minha surpresa, respondeu com clareza. Algumas funções cognitivas permanecem preservadas por muito tempo nas síndromes demenciais — outras não.
Alucinações visuais ou auditivas não são raras nesses quadros. O cérebro, privado de referências confiáveis da realidade, pode criar personagens, vozes, histórias. Para quem vive a experiência, Pietro não é menos real do que eu sentada à sua frente.
No caso de Dona Marlene, ele surgiu há cerca de duas semanas, logo após uma extração dentária. Procedimentos, infecções, dor, alterações no sono — qualquer estresse físico pode desorganizar ainda mais um cérebro já vulnerável e desencadear esse tipo de sintoma.
Ao final da consulta, levantou-se com dificuldade, alisou o conjunto verde e disse:
— Eu gosto muito dos seus atendimentos, doutora. Você é muito simpática.
Imagino que Pietro também aprove.




