Entre o luto e a dor, a fé não é a ausência de sofrimento, mas a decisão de continuar falando. Uma jornada de reencontro com Deus e esperança.
Depois da morte dele, eu não pensei imediatamente em Deus.
Na verdade, fazia tempo que eu não pensava.
Ou talvez pensasse apenas através da ausência.
A ruptura não começou quando Henrique morreu.
Começou anos antes, quando meu pai adoeceu.
A demência tem um tipo particular de violência: ela não leva alguém de uma vez. Vai desfazendo aos poucos. Primeiro pequenas falhas, depois esquecimentos maiores, até que um dia a pessoa continua sentada na mesma cadeira — mas já não consegue mais alcançar quem ama da mesma maneira.
Durante a doença do meu pai, alguma coisa dentro de mim se rompeu também.
Eu não cheguei a abandonar formalmente a fé.
Só parei de conversar com Deus.
Sem briga explícita.
Sem revolta organizada.
Apenas silêncio.
Como acontece em alguns relacionamentos longos quando as pessoas deixam de se procurar.
Depois Henrique morreu.
E poucos meses mais tarde, em fevereiro de 2026, foi a Maria quem começou a desaparecer diante dos meus olhos.
No início, parecia apenas tristeza.
Uma adolescente tentando sobreviver ao luto do pai.
Mas havia algo diferente.
O sofrimento dela começou a ganhar profundidade, peso, permanência. Vieram as crises, o isolamento, a dificuldade de voltar para a escola, a sensação constante de vazio.
Ela passou mais de três meses sem conseguir frequentar as aulas.
Tentávamos acertar medicações.
Ajustar horários.
Criar pequenas metas diárias.
Às vezes havia melhora. Depois piorava de novo.
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Como médica, eu conhecia tecnicamente o que estava acontecendo.
Como mãe, eu estava em desespero.
Existe uma impotência muito particular em assistir alguém afundar emocionalmente quando esse alguém é um filho.
Você continua funcionando:
marca consultas,
organiza remédios,
acompanha sintomas,
controla horários,
tenta manter a casa de pé.
Mas internamente começa a viver em estado contínuo de alerta.
Foi nesse período que voltei a rezar.
No começo, sem saber exatamente para quem eu estava falando.
Não era uma fé bonita.
Não era paz.
Era necessidade.
Eu rezava como alguém tentando segurar uma porta aberta durante uma tempestade.
Todas as noites eu pedia a mesma coisa:
que Deus me desse força para continuar.
Sabedoria para não desistir.
E, principalmente, algum consolo para a Maria.
Às vezes eu pedia algo muito específico:
que Henrique aparecesse para ela em sonho.
Que dissesse que estava tudo bem.
Que, de alguma forma, aliviasse aquela dor que eu já não conseguia alcançar sozinha.
Os meses passaram.
E nada acontecia.
As crises continuavam.
As noites ruins continuavam.
O sofrimento dela permanecia ali, ocupando todos os espaços da casa.
Mesmo assim, eu continuava rezando.
Hoje penso que talvez a oração não mude imediatamente a realidade externa.
Talvez ela reorganize silenciosamente quem está tentando sobreviver dentro dela.
Até que, numa manhã, depois de muitos meses difíceis, perguntei como sempre perguntávamos:
— O que você sonhou?
Maria me olhou com uma calma diferente.
E disse:
— Mãe, hoje eu sonhei com meu pai.
Havia alguma coisa na voz dela que não parecia igual às outras vezes.
Perguntei:
— E o que ele falou?
Ela respondeu com uma tranquilidade quase infantil:
— Eu perguntei se ele tinha morrido mesmo.
Fiquei em silêncio.
— E o que ele respondeu?
— Que sim. Que era verdade.
Depois ela continuou:
— Eu perguntei como era depois da morte.
Pela primeira vez em muitos meses, eu senti medo da resposta.
Mas ela falou serenamente:
— Ele disse que era tudo escuro… mas depois ele voltava pra cá.
Eu escutava sem interromper.
Então ela disse:
— E eu perguntei como eu vou saber se você está aqui comigo.
Respirei fundo.
— O que ele respondeu?
Maria sorriu de leve.
— Ele falou: “Eu vou estar entre as mesas. Vou estar entre vocês.”
Quando ela terminou de contar, percebi que alguma coisa tinha mudado.
Não necessariamente na realidade.
Mas dentro dela.
E talvez dentro de mim também.
Não sei explicar racionalmente o que aconteceu naquela manhã.
Como médica, eu poderia pensar em mecanismos do sonho, elaboração psíquica, reorganização emocional do luto.
Mas existem experiências humanas que, mesmo podendo ser compreendidas pela ciência, não deixam de carregar significado simbólico profundo para quem as vive.
Naquele dia, depois que Maria saiu do quarto, eu chorei copiosamente.
Chorei pela primeira vez em muitos meses não apenas de dor.
Mas de alívio.
Porque percebi que, em algum lugar entre o luto, a depressão da minha filha e o esgotamento daqueles meses, eu tinha começado silenciosamente a conversar com Deus de novo.
E talvez fé seja isso.
Não a ausência de sofrimento.
Mas a decisão de continuar falando, mesmo quando o silêncio parece a única resposta.





