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O dia que seu Antônio parou de dirigir

O caso de Seu Antônio mostra a progressão do Alzheimer, desde a resistência inicial ao tratamento até a deterioração cognitiva que comprometeu sua capacidade de dirigir, gerando preocupações familiares.

Seu Antônio tratava o Alzheimer comigo há 5 anos. Sempre muito educado, personalidade forte, deu trabalho em aceitar os medicamentos prescritos para a doença. Aos poucos fui ganhando sua confiança, aceitou o tratamento e a recusa fazia parte de um passado distante.

A insistência da esposa em mantê-lo dirigindo sempre foi uma preocupação. Muitas vezes a família nega o diagnóstico. Mas a estabilidade das perdas fazia com que eu fosse um álibi dessa situação. Mas a doença não perdoa, avança sem pedir licença.

Hoje, a esposa que passou em consulta antes dele, nem mostrou seus exames e começou: — Doutora, a senhora precisa conversar com Antônio, está dirigindo muito mal, tivemos que vir de Uber, ele está muito bravo comigo. A memória dele piorou bastante também.

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As drogas utilizadas para o tratamento do Alzheimer são os inibidores da colinesterase. Mas o que isso significa?

A doença de Alzheimer é causada pela perda de neurônios colinérgicos no hipocampo e no córtex frontal (regiões cerebrais específicas), o que leva a perda de memória e outras funções cognitivas. A acetilcolina é um neurotransmissor (substância que ajuda a comunicação entre as células do sistema nervoso,os neurônios) e os pacientes com Alzheimer têm menores concentrações dele. Os anticolinesterásicos (drogas usadas para o tratamento) inibem as enzimas que destroem a acetilcolina que fica mais tempo entre as células otimizando a comunicação entre eles (neurônios). O que pode temporariamente estabilizar ou por alguns meses melhorar os sintomas, e tendo respostas bem individualizadas muitas vezes.

Seu Antônio adentrou a sala sorridente, educado como de costume, perguntei dos remédios e como sempre respondeu: –Ótimo doutora, se melhorar estraga (sic) *sigla essa que utilizamos quando não encontramos termos técnicos médicos para descrever os sintomas referidos. Expliquei que hoje teríamos que repetir os testes cognitivos ( memória, etc) para avaliar a necessidade de reprogramar o tratamento.

Demos início às perguntas e a cada dificuldade ou resposta incorreta ele repetia a mesma frase:

–Eu não vim preparado para isso, se eu soubesse desse teste… –como se justificasse algo injustificável.

Durante o teste do relógio, onde peço pra completar com números um grande círculo e marcar onze horas e dez minutos, a imagem final que vi foi um emaranhado de números que iam até vinte e num cantinho do círculo a esquerda, como se fosse um relógio digital, escreveu: onze horas, dois pontos, dez minutos.

A esposa tinha razão, a memória de Seu Antônio havia piorado muito. E a cada resposta incorreta eu sentia uma angústia, aquela que uma mãe quando faz lição de casa com um filho de seis, sete anos. Perguntei como estava sua rotina, se ainda dirigia e logo após sua resposta positiva emendei com voz embargada:

–Sr. precisa parar de dirigir.

Fiquei me questionando se a abordagem havia sido correta, mas a esposa precisava da minha ajuda, e se ele entendesse que seria uma orientação médica, acataria com mais facilidade. Pois bem, Sr. Antônio como uma criança contrariada de 5 anos pôs-se a chorar copiosamente. As lágrimas debulhavam-se sobre sua camisa, enquanto ele pressionava a mão contra os olhos. E com um olhar que atravessou minha fronte, até dor eu senti, disse:

— Dirigir é o que eu mais gosto de fazer doutora. É o que eu faço de melhor. e continuou: — Se eu soubesse disso não teria vindo na consulta.

Levantou várias vezes da cadeira dizendo que ia embora, agitado, inconformado, foi quando segurei bem forte uma de suas mãos e disse com toda sinceridade:

–Dói muito em mim também deixá-lo tão triste, mas é de minha responsabilidade cuidar do senhor, assim como venho fazendo todos esses anos. As lágrimas continuavam a cair e aos poucos foi se acalmando. Repeti várias vezes como era importante pra mim cuidar de sua segurança e que eu gostaria muito que ele continuasse confiando nos meus cuidados.

Aumentei a dose da medicação, e como uma mãe que quer poupar o filho da dor da vida, mas sabendo lá dentro de mim da verdade dos fatos eu disse:–Seu Antônio, tome os remédios como vem fazendo nas últimas consultas e quem sabe em três meses podemos reverter essa situação? Realizamos novos testes e podemos avaliar melhor esse assunto, mas por hora não pense nisso, use o Uber com sua esposa quando necessário.

Tenho uma filha de treze anos e aprendi que não devo poupá-la de algumas dores. Mas hoje fui uma mãe relapsa, quis dar esperança sobre algo da qual sei a resposta. Mas nesse maternar descobri também que uma mãe erra por amor e tudo bem. 

Hoje o dia terminou mais triste pra mim.  E se a memória de seu Antônio permitir, pra ele também.

tafate

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